Afinal, que Jogo é este?

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Respiro fundo, relaxo e noto a informação que chega à minha consciência a cada momento: sons, sensações, imagens, pensamentos… Observo, sem julgar. E isto gera-me um estranho efeito. Tenho a experiência de existir, em vez da ideia de existir. Testemunho que existo e isso é uma revolução.

Existir, estar em contacto comigo.
Testemunhar que existo é testemunhar a obra de Deus, é testemunhar o Criador.
E como é viver com isso?
Como é existir?
O que significa existir?

Sinto o peso, a magnitude dessa consciência. Consciência da imensidão da Criação e consciência que há um lugar para mim nela. Mais do que um lugar para mim… porque na verdade não é algo para mim, o foco não é o mim, o foco é o corpo de toda a Criação, o corpo vivo do Todo, no qual uma das suas células é o que acontece dentro das fronteiras daquilo a que chamo eu.

Tomo consciência dessa condição. Sou uma célula da existência.
Sentir-se pequeno… sentir-se o centro do mundo… ou sentir-se à margem da vida, é fácil. É fácil porque é acerca do eu.
Mas sentir-se dentro da existência traz outro sentido de responsabilidade. Não dá para não ver o Criador. Não dá para não se confrontar com a relação com Ele.

Afinal, que Jogo é este?

Image by cristian prisecariu from Pixabay 

Da mente para a matéria

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Descobri uma forma diferente de materializar projectos. Ocorreu empiricamente, com uma peripécia:

Lembro-me de há algumas semanas ter pensado que para poder explicar o Process Work às pessoas, o melhor seria escrever relatos de casos reais, das técnicas que se aplicam, dos impactos que têm. Foi mais do que um pensar. Havia uma imagem associada e um sentir no coração. Uma luzinha interior que brilhava a sonhar com essa possibilidade.

Mas não surgiu energia para fazer nada no momento, nem nos dias seguintes, nem nos seguintes… e respeitei isso e, de alguma forma, “esqueci” isso. Esqueci no sentido de que saiu do foco da minha atenção.

Mais à frente, depois de me encontrar com um colega para praticarmos, após nos despedirmos, eu parei um pouco, fiz uma pausa para respirar fundo, conectar comigo, deixar-me aterrar no aqui e no agora. Emergiu a vontade de fazer um exercício, usando Process Work, e de repente surge uma imagem na minha mente. A imagem trazia várias informações: oh, aquilo que foi trabalhado hoje tinha ali um ponto específico que é muito interessante, eu poderia escrever sobre isso.

E pronto. Tinha emergido a clareza sobre um texto para escrever. E o texto nasceu em minutos.

E depois reflecti. Que interessante, há aqui uma espécie de comunicação com o “universo”. Eu coloquei uma intenção e é como se alguém a tivesse recebido, olhado para o mapa global do TODO, estudado a melhor forma de encaixar isso, e depois me tivesse mandado de volta a indicação de quando e como o fazer.

Intuí de forma vívida a existência dessa comunicação e dessa diferenciação de papéis. Existe um “Arquitecto”, “lá em cima”, que tem uma visão global de todos os seres, acontecimentos, propósitos e da interligação entre eles. É uma espécie de Controlador de Tráfego Aéreo. E com esse mapa do Todo, recebe as solicitações dos pilotos das aeronaves, encontra a melhor solução e devolve a resposta.

Experimentar esta divisão de papéis relaxou-me. É algo assim: eu intenciono, escuto, obedeço e tudo flui!

Crédito: Image by TheDigitalArtist on Pixabay 

Natureza viva

Noto que a minha relação com a natureza por vezes muda.
Há momentos em que uma árvore é só uma árvore e uma pedra uma pedra. Coisas paradas, caladas, separadas de mim.
Há outros momentos em que tudo ganha vida. A minha percepção muda e entro num diálogo: tudo fala comigo, os seres mostram-me a sua (minha?) alma. É uma ligação ao Subtil que baralha a mente mas que alegra o coração.
E para chegar a esse estado, é preciso criar disponibilidade interior. Sentir o chão, o ar, o espaço à volta… notar as impressões que chegam através dos sentidos, respirar, deixar-me estar, até que o coração se abra à magia.
E nesse momento surge o convite à fotografia. Capto imagens que requerem a mesma atitude de quem as contempla. A atitude de deixar que a imagem fale consigo, para além do óbvio. Quem és tu? O que despertas em mim? O que me estás a dizer?
Este fim de semana ocorreu-me um desses momentos em que tudo ganha vida e estes foram alguns dos registos.

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A Insustentável Experiência de Ser

Assistir ao desdobrar da experiência humana em mim…
Estar na experiência. Permitir-me senti-la, abraçá-la, acolhê-la na sua totalidade. Fluir com ela. Vivê-la e não julgá-la.
Conectar com a experiência, como ela se expressa no corpo e na suas sensações, no movimento, no olhar, no sonhar, no ouvir, no pensar, no falar, na relação.
Experienciar e testemunhar ao mesmo tempo.
Sustentar a experiência, permitindo a sua digestão.
A experiência no interior, no exterior; no individual, no colectivo.
Toda a desconexão é a desconexão da experiência, aqui e agora.

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Lisboa || 2019

Lírios

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Hoje estava inquieta, em casa. São horas de almoçar. Mas não, almoço mais logo, agora vou sair um pouco à rua. Saí. Ai, que bom sentir o sol! Os seus raios abraçaram-me e o meu olhar demorou-se nas plantinhas do jardim. Sentei-me na borda do canteiro a contemplá-las, maravilhada com as flores amarelas dos trevos.

Mais à frente reparo que há lírios! Não tinha reparado em vocês. Apetece-me tirar uma fotografia. Estou de cócoras, no jardim, e sou banhada por um perfume inebriante. Ah, é o perfume dos lírios! Aproximo o meu nariz e fico ali, em íntimo deleite. E os meus olhos são acariciados pelo lilás brilhante e aveludado das suas pétalas.

Oh, noto como tinha saudades destes passeios contemplativos, desta qualidade de estar, conectar, relaxar e amar.

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Prior-Velho, Portugal || 2019

 

 

Response_abilidade

Olho em volta. Sinto-me triste.
Que oceano de tristeza! Como se fizesse uma cova dentro de mim. Ocupa muito espaço. Desconecta-me da vida.
O oceano é preenchido de um nevoeiro cinzento. Está tudo escuro e parado.
Nesse oceano caem gotas de luz branca.
O fundo agora parece-me uma parede, metálica e lisa. Hmm, é um cano de água, largo, longo, fechado.
A água começa a fluir.
O cano saiu à luz do dia e transformou-se num semi-cano que percorre uma colina. A água é límpida e sinto o ar fresco, a amplitude do céu, o cheiro de montanha.
Uma nuvem formou-se. Sou uma gota de água que se liberta e viaja no vazio. Sente alegria. Busca o solo e sabe que o solo a busca a ela. E ao chegar funde-se nele.

Acolher o que está presente em mim a cada momento, com uma atenção amorosa que testemunha sem se identificar. Desdobrar o que está presente e ver o que acontece! Deixar que o significado da experiência e do simbolismo chegue à consciência.

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Santorini – Grécia || 2018

Perdida de mim

sem abrigo
Vou na rua, noite de sexta-feira, Lisboa. Praça da Figueira.
Olho e vejo algo, é uma pessoa ali deitada, um sem abrigo sobre a grade do respiradouro do parque de estacionamento.
Deitado, sem roupa a cobri-lo. Treme. Será que tem frio? Posso dar-lhe o meu casaco. Mas não, tem roupa ao seu lado. Talvez não se queira cobrir. Mas treme.
Ai, agora está a virar-se. Não quero que me veja. Tenho medo. Tenho vergonha. Mas afinal não se vira. Relaxo novamente.
E fico ali. A olhá-lo. Sinto-me aquele ser humano. Anestesiada, perdida de mim, num profundo abandono, uma profunda solidão. Estou transformada num farrapo estendido na grade de um respiradouro. Invisível.
Sinto naquele ser o ser de toda a humanidade, caída, perdida da sua condição de dignidade Divina, em profunda miséria. O Filho Pródigo.
Como se resgata esse ser? Como devolvê-lo à sua Herança? Sinto impotência.
Fico só ali. Em presença. Humana a testemunhar a sua humanidade. No coração uma oração.
E medito no que é isto de se viver uma experiência humana.