Response_abilidade

Olho em volta. Sinto-me triste.
Que oceano de tristeza! Como se fizesse uma cova dentro de mim. Ocupa muito espaço. Desconecta-me da vida.
O oceano é preenchido de um nevoeiro cinzento. Está tudo escuro e parado.
Nesse oceano caem gotas de luz branca.
O fundo agora parece-me uma parede, metálica e lisa. Hmm, é um cano de água, largo, longo, fechado.
A água começa a fluir.
O cano saiu à luz do dia e transformou-se num semi-cano que percorre uma colina. A água é límpida e sinto o ar fresco, a amplitude do céu, o cheiro de montanha.
Uma nuvem formou-se. Sou uma gota de água que se liberta e viaja no vazio. Sente alegria. Busca o solo e sabe que o solo a busca a ela. E ao chegar funde-se nele.

Acolher o que está presente em mim a cada momento, com uma atenção amorosa que testemunha sem se identificar. Desdobrar o que está presente e ver o que acontece! Deixar que o significado da experiência e do simbolismo chegue à consciência.

Santorini_8Out18_banhos de luz
Santorini – Grécia || 2018

Perdida de mim

sem abrigo
Vou na rua, noite de sexta-feira, Lisboa. Praça da Figueira.
Olho e vejo algo, é uma pessoa ali deitada, um sem abrigo sobre a grade do respiradouro do parque de estacionamento.
Deitado, sem roupa a cobri-lo. Treme. Será que tem frio? Posso dar-lhe o meu casaco. Mas não, tem roupa ao seu lado. Talvez não se queira cobrir. Mas treme.
Ai, agora está a virar-se. Não quero que me veja. Tenho medo. Tenho vergonha. Mas afinal não se vira. Relaxo novamente.
E fico ali. A olhá-lo. Sinto-me aquele ser humano. Anestesiada, perdida de mim, num profundo abandono, uma profunda solidão. Estou transformada num farrapo estendido na grade de um respiradouro. Invisível.
Sinto naquele ser o ser de toda a humanidade, caída, perdida da sua condição de dignidade Divina, em profunda miséria. O Filho Pródigo.
Como se resgata esse ser? Como devolvê-lo à sua Herança? Sinto impotência.
Fico só ali. Em presença. Humana a testemunhar a sua humanidade. No coração uma oração.
E medito no que é isto de se viver uma experiência humana.

Estás a enraizar?

Descubro um jardim novo. Um pequeno recanto de natureza. Estou com saudades de estar com as árvores, estar com qualidade de estar.
Procuro conectar. Relaxo, permito que as impressões cheguem aos sentidos, noto o espaço e a presença dos seres ao meu redor.
Ligo-me a uma árvore. Encosto a minha cabeça a ela. E fico. Ligada. A deixar que ela alivie todo o peso mental que carrego. Sou eu e a árvore.
— Oh, estás a enraizar?
Alguém fala comigo. Bem, hmmm, sim! Aliás, não!, não estava a enraizar, estava a falar com a árvore. E depois fico a falar com a pessoa 🙂
Mais à frente, já de saída, outro grupo de árvores chama-me à atenção. Criam uma atmosfera de mistério entre elas. O desenho dos seus troncos negros, os ramos a afunilar, escurinhos no fundo verde, desperta-me os sentidos. E noto uma árvore em particular… vejo o seu rosto: faz lembrar um velho veado manso.
Entrar neste mundo mágico da natureza é entrar num mundo de encanto e deleite.

oliveiras
Telheiras, Lisboa || 2019

arvore veado

A metafísica da bicicleta

De Cascais até ao Guincho. Convidei uma amiga para o passeio de bicicleta. Ups, há quanto tempo já não ando de bicicleta?

Bicicleta preparada, vamos lá. Ah!, pelo passeio não; pelo passeio andas tu quando vais a pé e agora estás de bicicleta. Ok, pela estrada. Ai, os carros! Enraíza, vá! respira, vem para o teu centro. Estou aqui e os carros passam; está tudo bem, mas preciso de estar aqui e a mente foge. Ai, como é fácil desenraizar e ir para o mundo dos sonhos. Mas agora estás aqui! Isto é sério: há carros, a estrada, o teu corpo frágil. O risco é real. Aqui, a pedalar não é local para sonhar, para desconectares da realidade. Aqui precisas de estar aqui. Continuar a ler

Pele

Estar na minha pele é um lugar humilde.
Ainda assim, tenho um lugar e isso me basta.

malta_2016_pé
Malta || 2016

Texto originalmente publicado em positivoinsatisfeito.blogspot.com a 29/7/2018.

Presente

Ser aquilo que o momento presente pede.
O momento presente pede para ser presente.

img_1939
Lisboa, Portugal || 2014

Texto originalmente publicado em positivoinsatisfeito.blogspot.com a 28/8/2014.

Árvores

Tenho um fascínio por árvores, como se algo dentro de mim fosse semelhante a elas.
Uma presença discreta, silenciosa mas imponente.
A solidez das raízes que se aprofundam sem medo na escuridão da terra.
A grandiosidade sonhadora do ramos que se abrem e se estendem para o céu.
Sólidas mas leves, dançam ao som do vento que as fustiga.
A generosidade de quem dá porque essa é a sua natureza.
Dá a sua sombra, a beleza das suas flores, os seus frutos, o abrigo sob os seus ramos.
Uma fonte de vida: os pássaros que nelas têm a sua casa, os frutos que a todos alimentam, o oxigénio que respiramos.
São amor em tom verde. Folhas sedosas que acariciam o olhar.
Uma presença que perdura no tempo, anos, décadas e séculos.
Testemunhas silenciosas das nossas conquistas e das nossas loucuras.
São a personificação de sábios anciões, que guardam a sua sabedoria apenas para aqueles que a queiram entender.
Despertam em mim reverência e paixão.

como_italia_2014_àrvore
Itália || 2014

Texto originalmente publicado em positivoinsatisfeito.blogspot.com a 4/6/2012.